quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Do desencontro entre universidade e indústria - parte 3 - seus professores

Existe uma desconfiança generalizada daqueles professores de computação que tem pouca ou nenhuma experiência prática com grandes projetos de software. Isso se aplica à maioria dos professores em universidades que são fortes em pesquisa e a muitos professores das universidades focadas em ensino. Esses professores muitas vezes ficam sem credibilidade frente a alunos que questionam se o professor sabe mesmo sobre o que está falando. Afinal, como ele pode saber se nunca trabalhou?

Porque veja bem, ensinar não é trabalho. Eu mesmo me cansei de ouvir alunos perguntando se eu "trabalhava ou só dava aulas?"  Tanto que parei de dar aulas e fui trabalhar, mas isso é outra estória.

O fato é o seguinte: fazer e ensinar são duas coisas completamente diferentes. Para ser bom em um não é preciso ser bom no outro, nem vice-versa. O fato da sua professora que te ensina design patterns nunca ter de fato usado um design pattern para resolver um problema que ela teve no trabalho dela é totalmente irrelevante. As questões são: ela sabe o que está falando? ela sabe te mostrar um exemplo que te ajude a entender o que ele está falando? quando você não estiver entendendo nada, ela sabe te pegar pela mão e te fazer perguntas e mostrar o caminho até você entender? Pois é isso que ela precisa saber.

Muito maior do que o problema da falta de experiência prática dos seus professores é a falta de incentivo para que sejam bons professores. Em universidades de pesquisa isso é gravíssimo. Há excelentes professores, mas excelentes porque querem ser e não porque ganham algo com isso. Se um professor de repente tem uma reunião cancelada e tem o dia inteiro livre pela frente, é muito melhor para a carreira dele investir aquele dia em pesquisa do que investir em melhorar as disciplinas que ele leciona. Não há incentivo para a excelência no ensino.

Nas universidades de ensino também não há incentivos. Qual a diferença em termos de carreira entre um professor que faz o mínimo para não ser mandado embora e um que dá o seu sangue e seus fins de semana para garantir que os alunos estão tendo a oportunidade de aprender algo importante? A resposta é que não há nenhuma diferença.

Se você é aluno, você tem professores que passam seus dias pensando em formas melhores de educar. Se você se importe com a falta de experiência de mercado deles, esqueça isso e comece a pensar em incentivos para eles se dedicarem mais a vocês, porque hoje eles tem poucos.

2 comentários:

  1. Ora Torsten, mas que visao mais negativa. Nao desista do ser humano inteiramente. :-)

    A diferenca entre um professor bom e um que faz o minimo pra' nao ser mandado embora e' o mesmo que faz de voce um profissional bom em comparacao com aquele que apenas nao quer ser mandado embora: orgulho em fazer um trabalho bem feito.

    Tem gente que faz o que gosta e recompensa nenhuma pode ser melhor do que fazer *bem* o que gosta.

    E' pena que nem todas as pessoas sejam assim. Concordo que a maioria nao e'.

    A proposito: Otimo blog esse. Continue mandando bem ou os teus leitores te mandam embora, hein! :-)

    ResponderExcluir
  2. É verdade, ao reler percebi que ficou meio negativo mesmo, não era essa a minha intenção. É que eu acredito em incentivos e sinto que a pesquisa, por exemplo, recebe mais incentivos externos do que o ensino.

    Mas você tem toda razão, a maioria dos professores tem incentivos internos: o prazer de ensinar, de formar pessoas, de melhorar o mundo, de aprender com os alunos. Eu só queria ver a profissão mais valorizada e mais prestigiada.

    Obrigado pelos elogios, e com certeza, se o blog ficar ruim os leitores me mandam embora sim! :-)

    ResponderExcluir